Mas Zé do Prato deixou as arenas repentinamente: viveu apenas 43 anos e morreu de infecção generalizada, em 27 de janeiro de 1992. Depois de sua morte, a esposa Áurea Bonfíglio procurou pela prefeitura de Regente Feijó para doar o acervo de troféus e pertences pessoais de Zé do Prato, mas se deparou com a falta de recursos financeiros da administração pública. Sem essa possibilidade, ela sonhou em ver o museu em Piracicaba, mas os trâmites legais fizeram com que ela desistisse. Foi durante uma visita de Áurea à amiga de infância Salete Antonelli que surgiu a idéia de abrigar o museu no sítio em Charqueada.
Salete na ocasião trabalhava na reestruturação da Estância Casa de Pedra, pousada voltada ao turismo rural, e acatou a idéia de imediato, lamentando ao mesmo tempo a falta de atenção com o acervo.
Inicialmente vieram apenas alguns objetos, que decoraram os quartos dos chalés, mas com o tempo houve a necessidade de reuni-los num único local, já que parte dos hóspedes não entendiam o valor histórico das obras e a depreciavam. “Confesso que no início fiquei muito preocupada com o acondicionamento adequado dessas peças. Fiz este pequeno e modesto espaço, comprei cubas de vidro para proteger e faço a limpeza periódica para que as coisas não se deteriorem”, esclarece Salete, que além de amiga de infância de Áurea, acompanhou todos os passos do casal, do namoro ao casamento até a agonia da morte do locutor.
Atualmente o espaço possui 200 peças catalogadas no Ministério da Cultura, conforme consta no ofício de 5 de setembro de 1997, afixado em um canto do museu. “Um dos maiores presentes para mim foi o fato de Brasília ter reconhecido isso aqui como patrimônio histórico. E eu tomei este cuidado para que a memória do Zé do Prato seja preservada no futuro. A gente nunca sabe como vai ser o dia de amanhã e a geração futura precisa manter isso aqui”, cita Salete, ao seu recordar que na ocasião da inauguração do espaço, teve a honra da presença de Nalva Aguiar e do cantor Daniel. Em outra ocasião, até Hebe Camargo foi conferir o espaço.
No museu estão cinzeiros, microfones, mesa de som com 12 canais, fivelas, botas, cintos e agenda que mostram a importância do locutor. “O Zé do Prato foi o maior astro que este rodeio já teve. Ele ganhou muito dinheiro com o rodeio. Me recordo que certa vez a revista Veja fez uma reportagem comentando que o seu salário era maior que o do Gugu do SBT. Seu nome também foi parar no Guiness Book (o Livro dos Recordes).”
Mesmo com a simplicidade do pequeno e aconchegante museu, que está em um galpão que lembra um celeiro, em poucos minutos o visitante possui a real sensação do quanto Zé do Prato era querido entre os peões de todo o país. Em meio aos quadros, medalhas, posteres e faixas, está uma homenagem entregue a ele em 31 de agosto de 1986, em Arealva, quando a cidade paulista realizava a sua segunda edição do rodeio, e o considerou hóspede oficial do município.
Um outro quadro mostra o nome de Zé do Prato em meio às atrações principais da “Monumental Extraordinária Corrida com Seis Bravos y Magníficos Toros”, ocorrida em Madri, na Espanha.
Entre os objetos preservados estão três imagens de Nossa Senhora Aparecida. De acordo com Salete, a devoção pela santa era tamanha que Zé do Prato andava com duas imagem em miniatura (que guardava no bolso do paletó e da calça) e outra um pouco maior que ficava sempre na mala de viagem e que depois era posicionada na cabeceira da cama de onde estivesse hospedado.
O sonho de Salete é ter estrutura para um grande museu, mas ela reconhece as dificuldades financeiras, pois não possui nenhum apoio público para a manutenção. Parte considerável das fotografias (em torno de 500), por exemplo, estão na posse de um amigo do locutor, em Aparecida do Taboado. “Em algumas ocasiões, sofri com infestação de cupim e tive muito trabalho para que nada fosse danificado. Não quero correr o risco de trazer estas fotografias e elas ficarem apenas amontoadas. Pelo menos sei que lá em Aparecida do Taboado elas estão bem guardadas”, diz a amiga de Zé do Prato, que foi obrigada a redobrar a segurança sobre o local, já que recebeu “fanáticos” no espaço e teve várias tentativas de roubo.
TRAJETÓRIA
Mesmo que muitas pessoas não conheçam a história do anjo negro das arenas e dos microfones, sua história está eternizada na história do rodeio brasileiro.
A começar pelo rito sagrado da oração Ave Maria celebrada em todas as festas ou pelo grito “seguuuuura peão!”, adotado por 100 entre 100 locutores.
Não bastasse isso, seu nome hoje está presente em uma rua na cidade paulista de Colina, no estádio municipal e centro esportivo de Regente Feijó, sua terra natal, no recinto de rodeio de Águas de São Pedro, e até mesmo na ponte sobre o rio Piracicaba, conhecida como Ponte do Shopping.
No Mato Grosso do Sul, em Cassilândia, foi construída uma estátua em sua homenagem, no portal de entrada do recinto de rodeio da cidade. De acordo com o portal da prefeitura daquele município, sua última narração aconteceu em 1991 e ele foi um dos primeiros locutores a atuar na festa, que em 2009 completa 38 anos.
Conforme aponta o site da Equipe Marcos Rodeio, Zé do Prato foi coroinha na Igreja Matriz de Regente Feijó, trabalhou na lavoura quando pequeno, em uma auto elétrica e participou da fanfarra da escola em que estudava. Como tocava prato, recebeu o apelido, já que existiam também outros Josés na formação.
Seu primeiro emprego como locutor foi na rádio Difusora de Regente Feijó (AM 1580 kHz), onde desempenhava a função de sonoplasta e que lhe permitiu que ensaiasse um palavreado como locutor sertanejo, brincando sempre como se estivesse fazendo um programa.
Até que um dia surgiu a oportunidade de fazer um programa e Zé do Prato começou a apresentar o programa sertanejo Ranchinho da Amizade. Anos mais tarde, foi eleito vereador de sua cidade (entre 1973 e 1977).
Segundo Valter Bonfíglio, foi a partir dos anos 80 que o nome de Zé do Prato ganhou projeção nacional. A história contada por Bonfíglio, parceiro de muitos anos do locutor, é que em 1979, durante a Festa do Peão de Barretos (a última narrada por Zé do Prato, de apenas três), eles se conheceram. “Eu me aproximei da cabininha de locutor e disse que queria conversar. Mas como o Zé estava de saída para participar do filme `Estrada da Vida’, com o Milionário e José Rico, essa conversa só aconteceu em Avaré, dias depois”, rememora.
No começo da jornada, o trajeto de Zé do Prato e Bonfíglio acontecia num antigo Corcel 2, que por incrível que pareça sobreviveu aproximadamente por cinco anos a estradas de terra e em mão única. “Depois ele ganhou um pouco mais de fama e já contratou um motorista particular. E também aprimorou o sistema de som. Até
Segundo Bonfíglio, Zé do Prato era uma pessoa carismática com o público, por isso conquistou todos por onde passou. E além disso, era uma espécie de profeta dos rodeios. “Ele dizia que se um dia a televisão entrasse nos rodeios, eles perderiam sua essência. E isso acontece hoje: as festas de peão viraram shows, as pessoas não frequentam por causa da montaria ou pela locução, mas por causa das atrações. Mas ele dizia que queria parar antes de ver isso acontecer e que o seu sonho era parar no auge.”
Fonte: RODRIGO ALVES / Jornal de Piracicaba – texto retirado do site www.mundodorodeio.com.br